blog do eu ninguém

Política, filmes, música, livros e tudo que se trata da minha mente perturbada.

  • Recentemente eu terminei com a garota que eu pensava ser o amor da minha vida. A mesma que eu já escrevi sobre aqui no blog algumas vezes. E preciso dizer que tem sido difícil, principalmente por saber que, apesar dos pesares, ela ainda sente algo por mim, e que eu poderia simplesmente mandar uma mensagem para ela e nós voltaríamos a nos falar.

    O problema é que falar com ela já não faria mais sentido. Seria uma forma de me manter preso a um sentimento, preso a um tempo que já passou, preso a uma possibilidade de futuro que já se demonstrou impossível. A verdade é que tudo que eu sonhei com ela, todas as possibilidades, não vão se concretizar num futuro, e a realidade é dura, de que nosso relacionamento seria estressante demais, difícil, que em algum momento ela se sentiria mal comigo, e eu me sentiria mal com ela, a um ponto de não aguentarmos mais um ao outro. E é bom que acabe assim. Talvez, se tivessemos filhos, acabassemos machucando eles no processo também. Talvez ela finalmente se suicidasse um dia e eu ficasse traumatizado pela minha vida inteira, talvez eu fizesse algo estúpido enquanto estou no relacionamento que fizesse com que eu me arrependesse disso pelo resto da minha vida.

    Porém mesmo sabendo dessas possibilidades, este relacionamento tomou uma parte considerável dentro de mim, e agora, cortar esta parte dói, como se eu tivesse de arrancar um membro do meu corpo. O problema é que eu me vejo com tempo nas minhas mãos, e sem um rumo certeiro para o meu futuro. Porém, eu decido ver isto com bons olhos. Talvez cortar o câncer do nosso corpo não seja tão ruim assim. Talvez o tempo que eu tenha em minhas mãos me dê espaço para cuidar daqueles que estão verdadeiramente ao meu redor e me amam de verdade, podendo assim trazer alguma satisfação para a minha vida. Até porque, se eu continuasse com essa pessoa com a qual eu terminei, essas pessoas que me amam ao meu redor apenas se machucariam, se machucariam ao ver que eu me machuco, se machucariam vendo o jeito que sou tratado, e se machucariam pelo jeito que esta pessoa os trata também.

    Então agora eu concluo o que é o correto para minha vida. Mesmo que eu não saiba qual o meu motivo ainda, mesmo que eu não saiba como vou preencher 100% desse tempo do qual eu me dedicava para o relacionamento, por achar que este era o único futuro possível para mim. Eu ainda posso preencher 50% desse tempo, e com o tempo ir encontrando novas paixões, novos motivos e novos jeitos de preencher meu tempo e visualizar meu futuro.

    E quanto ao “como” eu vou “cortar fora” essa parte de mim. Bom, acredito que seja isto que eu estou fazendo enquanto eu escrevo este post. Estou cortando esta parte, estou preenchendo o vazio, estou vendo e visualizando o por que das minhas decisões e vendo que eu realmente agi corretamente, e de acordo com a pessoa que sou de verdade. Talvez até seja o melhor para ela também, agora que ela pode focar mais em si mesma, sem se preocupar com o relacionamento, sem se estressar comigo. De qualquer jeito, ainda desejo a maior sorte para ela, e que ela tenha tudo que ela precisa e merece, mas a verdade é que eu não sou uma dessas coisas. Eu mereço sofrer por outros motivos, coisas que consigam me preencher, problemas que eu verdadeiramente consiga resolver, e assim poder viver e morrer uma vida que valeu a pena.

    Eu tenho uma opinião que talvez seja equivocada, de que não existe decisão certa ou errada, apenas existe a decisão que você toma. Mas as vezes algumas coisas fazem mais sentido que outras, dentro do meu diálogo interno. É claro que é possível você justificar qualquer coisa para si mesmo, e ditadores genocídas são os melhores em fazerem isto. Mas dessa vez acredito que minha decisão é a que faz mais sentido, para que ninguém sofra mais do que o necessário. Para que ninguém continue com a insanidade de fazer as mesmas coisas e esperar resultados diferentes. A mudança é necessária, e esse pedaço que hoje eu estou cortando de mim, vai crescer de novo, diferente, mais forte, mais correto.

    De certa forma, esta é a beleza de estar vivo. Só se aprende errando, é verdade.

  • Eu fui maltratado boa parte da minha vida. Meu pai nunca quis ser um pai de verdade para mim, minha mãe foi mãe muito cedo e nunca esteve preparada o suficiente, e por isso, eu acabei sofrendo muito. Minha avó, que cuidou de mim até meus 9 anos, morreu de um infarte enquanto eu dormia do seu lado, e de repente, eu me vi sozinho no mundo. Durante um tempo eu depositei minha confiança e meu carinho no meu padrasto, mas por influência da minha mãe eu deixei de ver ele como um pai e logo, ela teve câncer de mama, e durante o tratamento eu acabei ficando isolado, triste, ansioso, e isso lápidou a forma como eu vejo as coisas até hoje.

    E agora eu estou aqui tentando ser a melhor versão de mim mesmo. Estou num relacionamento, que recentemente, vem sendo bastante conturbado, entre idas e vindas, brigas constantes, problemas externos, minha ansiedade e meus problemas com pessoas se demonstram cada vez mais presentes.

    Meu relacionamento vem sendo estável há cerca de 2 semanas, logo depois do carnaval, onde nos entendemos e depositamos confiança um no outro, após uma briga pesada e cruel onde nos machucamos ambos, bastante.

    E agora eu sento aqui, com um peso diferente na minha cabeça, o medo de ser traído, de ser abandonado novamente. De perder uma pessoa que representa o meu futuro, medo dessa pessoa amar a alguém que não seja apenas eu.

    É difícil para mim aceitar que não tenho controle sobre certas coisas, mesmo que tudo pareça bem, é difícil para mim pensar que não estou sendo lentamente abandonado, não ter minha autoestima baixa. Me sinto preso a este sentimento de angústia, e os pensamentos de abandono se repetem na minha cabeça como um mecanismo de defesa, para que eu não me machuque no futuro, quando eventualmente vou ser abandonado denovo, ou pelo menos assim eu penso.

    Mas a verdade é que eu não posso controlar estas coisas, não posso controlar caso alguém decida me abandonar, não posso controlar quem saí da minha vida por escolha própria, e com certeza esse sentimento de auto defesa só afasta ainda mais quem é verdadeiramente importante para mim.

    Tenho medo de ceder totalmente, de confiar cegamente, pois tenho medo de me machucar, de sofrer aquilo que eu já sofri e cair em descontento com o luto de me liberar das amarras que tenho com alguém.

    Eu sento e me pergunto, “Como aceitar, e deixar o meu futuro nas mãos do destino?”. Como eu posso simplesmente confiar cegamente, aceitar que para ser amado não basta apenas amar, mas também libertar, respeitar e deixar com que as coisas sigam seu caminho natural.

    Certas situações que remetem a me sentir traído se repetem na minha cabeça. Falsas lógicas são criadas para com que eu tenha de justificar minhas ansiedades e meus pensamentos intrusivos. Cansativas espirais são exploradas enquanto eu penso em tudo que poderia, pode, ou já deu errado.

    Para me libertar dessas amarras eu devo simplesmente confiar cegamente. Escolher depositar a ousadia de ter alguém que pode me machucar e, escolher acreditar. Como um crente acredita em seu Deus, acreditar que nada de ruim vai acontecer direcionado á mim.

    Tenho medo que ela, por conta das suas inseguranças, busque validação em outras pessoas, para se sentir desejada. Tenho medo de que ela ainda ame como amou no passado, e que este amor volte a ter pujancia, e torne o nosso amor absoleto. Tenho medo que de todas as coisas que já aconteceram entre nós, eu fique como culpado e volte a ser odiado como fui anteriormente.

    Mas a verdade é que dentro dessas coisas o único controle que tenho de verdade é sobre mim e sobre minhas ações positivas, que podem aumentar nosso amor, aumentar a confiança, e diminuir a necessidade de oposições externas.

    Portanto, assumindo a minha devoção a ser amado, e a este relacionamento, eu devo simplesmente confiar, amar, e depositar, do que há de mim, a chance que o relacionamento tem de funcionar, e parar de dar tanta atenção a chance de não funcionar.

    Escrevo isto sabendo que pensamentos ruins como os que eu citei vão voltar para a minha cabeça. Cabe a mim dar a correta desimportancia para estes pensamentos intrusivos e voltar minha atenção a aquilo que é a verdade, ao invés de alimentar minhas inseguranças como venho fazendo.

    Eu me perdôo por me sentir desta forma, e entendo por que eu me sinto assim, e então conclúo que as coisas vão acontecer como tem de acontecer, e que eu sou o verdadeiro vilão dentro da minha mente, corrompendo aquilo que deve ser belo.

  • Há 5 dias que meu coração foi despedaçado. Num momento de calor, eu magoei a pessoa que mais importa para mim. Saber que eu faria de tudo para que essa pessoa fosse capaz de entender o que eu sinto de fato, entender qual é a minha intenção, é o que mais me machuca. É o que faz com que eu não consiga passar um segundo desses últimos 5 dias sem um aperto no coração, sem sentir que meu mundo está reduzindo-se as cinzas.

    Mas a verdade é que talvez ela nunca seja capaz de entender.

    Você só consegue entender de verdade uma pessoa quando entende suas falhas, e amar de verdade quando você aceita essas falhas como parte da pessoa. O problema é que ela não parece ser capaz de entender minhas falhas, entender que em certos momentos de estresse eu desligo minha racionalização para evitar me machucar, entender que eu de fato sou uma pessoa insegura mas que tenho consciência das minhas inseguranças e que trabalho para melhorar a mim mesmo. Entender que para construir aquilo que almejamos não vai ser apenas uma frase que vai ter de ser perdoada, e que terão muitos problemas maiores que teremos de lidar juntos.

    Ao me expor desse jeito, ao compartilhar todos meus maiores segredos, ao ser completamente vulnerável eu entrego minha alma de bandeja, e me sinto cuspido de lado, queimado pelos meus pecados.

    O problema é que eu não sou capaz de esquecer, não sou capaz de me perdoar por perder ela. Me sinto impotente. Meu desejo de retornar áqueles segundos e abraçar ela só mais um pouco, fazer com que ela se sinta segura nos meus braços e não magoada por aquilo que eu disse.

    Eu só gostaria que ela entendesse.

    Me sinto impotente ao falar mil vezes que a amo, e pior ainda ao escutar dela que ela me ama, pois sinto que o sentimento não é suficiente, e que é tudo minha culpa por não ter a capacidade de lidar com ela, mesmo tentando tanto, dando todos meus esforços, doando todo meu coração, meus segredos, meus medos.

    A verdade é que não consigo tirar da minha cabeça que eu gostaria de me casar com ela, que gostaria que tivessemos filhos, que gostaria que vivêssemos juntos. Dói demais pensar que alguém vai tomar o meu lugar nessas coisas, que vai ser suficiente, e que ela vai se doar mais para esta pessoa e confiar nela completamente, como não confiou em mim. Assim como no passado, se eu tivesse apenas sido melhor, ela não teria que se machucar denovo, ninguém nunca teria feito mal algum a ela.

    Eu apenas gostaria de estar ao seu lado.

    Pois na minha cabeça mais nada faz sentido. Não há sentido em gritar ou brigar com ela pelo jeito que ela me tratou. Não há sentido em pedir desculpas.

    A única coisa que faz sentido é eu demonstrar meu amor. Pois é a única coisa que me diferencia, é a única coisa que posso contar que nunca vai falhar. É algo imutável, que me deixa irracional as vezes, faz com que eu sacrifique meu bem estar, faz com que eu me machuque cada vez mais e mais. Faz com que eu escolha ela acima de mim mesmo.

    Eu posso seguir em frente, eu sei que é possível eu simplesmente seguir minha vida, trocar meus objetivos e fazer com que a dor de perder ela doa menos no futuro. Mas para mim simplesmente não faz sentido. O que eu quero agora, e o que eu desejo querer no futuro é a vida que eu escolhi com ela. São os sonhos que imaginamos juntos, e as coisas que ainda temos para imaginar.

    Sinto que falhei e falho, e ao demonstrar minhas fraquezas não sei se ajudo meu caso ou se atrapalho mais meus próprios objetivos. Mas devo admitir que leva muita coragem para ser tão honesto, para ser tão vulnerável devo enfiar minha mão dentro da caixa escura das minhas emoções mais profundas, e arrancar do meio das minhas tripas a verdade mais certeira que há dentro de mim.

    E é claro que eu levo em conta os problemas que ela tem. Levo em conta todos seus defeitos e mesmo assim faço com que ela tenha a mim em sua mão. Deixo que faça todas escolhas, me dôo pois ela sabe que não sou capaz de abandoná-la e que toda a decisão parte de si própria. Mas é simplesmente por que da minha parte não há dúvidas. Há apenas modos de lidar com perder ela, quando falo que não quero que ela me chame nunca mais é para que eu possa finalmente trabalhar nesta dor que me atinge tão profundamente.

    Se não há o que fazer, que doa em mim então.

  • O conceito é simples e rotineiro. Todo mundo já teve momentos onde se lembrava de que um dia iria morrer, e isto te motivava a querer viver mais ainda, memento mori, é uma frase repetida e vista por aí em tatuagens nas pessoas mais chatas e desinteressantes que você conhece. O meu propósito com isto não é ser mais um a repetir os clichês, mas sim levantar uma indagação, trazer a resposta e trabalhar as possíveis soluções deste problema. E aqui jaz a questão: Esquecemos de que vamos morrer?

    Existe um problema claro e multigeracional dos integrantes do então chamado século XXI, o até então século mais curto, mas com o maior número de revoluções técnológicas, mudanças de paradigmas, acesso a informação, e tudo que a vida moderna e globalizada está disposta a nos oferecer, porém, tudo que está acontecendo parece tão dinâmico e rápido de que esquecemos da principal força motora do ser humano, que deveria guiar todas as decisões, medos e prazeres. Esquecemos de que somos mortais e que estamos fadados a desaparecer deste mundo.

    Quando devemos decidir o que veradeiramente importa na nossa vida, a morte deve tomar uma posição primordial nas nossas escolhas. Perguntas como, “Vale a pena morrer por isto?”, “Os meus dias contados aqui na terra, serão bem gastos com isto?” devem ser pivotais ao tomar uma decisão verdadeiramente importante. Tudo que gera propósito leva a um destino final, como num filme que começa com um propósito definido, e leva a um grande climax resolvendo este problema inicial, porém, uma das ironias da vida, é que todos nós temos o mesmo destino final, certeiro desde que nascemos, e este deve não só ser nosso maior medo, como também deve ser o maior incitador para aproveitarmos o tempo que ainda nos resta.

    O que vejo hoje no entanto é que, para a maioria das pessoas, não existe esta urgência, este medo. Pense na sua rotina enquanto eu penso na minha, no que você faz na maioria dos dias, a partir de quando você acorda, até a hora que você vai dormir, e pense, é assim que devo estar vivendo minha vida, mesmo sabendo que posso morrer?

    Não estou pedindo para que nós todos simplesmente saiamos tendo constantes epifanias, larguemos nossos empregos, e vivamos de modos extremos, como devotos religiosos, hedonistas sem freio, artistas insanos ou apaixonados dependentes, mas que sim façamos as decisões corretas, com base nos fatos, e o *único* fato que é certeiro em qualquer decisão é o fato de que vamos morrer.

    Talvez, ao pensar hoje a noite, depois que você chega do trabalho cansado, se você deveria ficar assistindo a vídeos no instagram durante horas, ou se deveria brincar com seu filho, se levar em conta o fato de que um dia você vai morrer, de que seu filho vai crescer e que este momento vai acabar e nunca mais vai voltar, só talvez, então você se tome de conta de que existe uma decisão que é clara e notória, apesar de não ser comum.

    Apesar de que, nem toda a decisão pede uma meditação tão profunda sobre nossa mortalidade. Não estou pedindo para que decidamos que calça usar para um encontro, com base na possibilidade de morrer, apesar que, se fosse para ser atropelado e sair no jornal, eu preferiria estar bem vestido.

  • Eu não sofro. Não sofro por que não me dou a oportunidade de sofrer, na verdade, tudo que eu gostaria é aprender a sofrer denovo, aumentar minha capacidade de sentir sentimentos ruins, para me tirar do estado de ansiedade constante, que não necessariamente é desconforto constante, mas sim, a eterna busca por conforto, buscar uma maneira de amenizar os sentimentos ruins apenas buscando outras formas de me sentir melhor.

    Isto tudo se deve a minha falta de consciência. Pois a maior parte do tempo meu cérebro gasta criando cenários, pensando sobre as coisas, problematizando, e não processando o presente, o que está ali, na minha frente.

    O problema é que, junto deste estado de desassociação, eu também tenho uma grande vontade de fazer algo significativo, algo diferente, me destacar, só que atualmente eu me perdi, perdi minha identidade, minhas paixões. Me sinto perdido numa vastidão, com apenas uma leve angústia que perdura no fundo da minha alma, me sinto sozinho, não triste, mas sim sem propósito.

    Este estado e esta ansiedade são um tanto quanto curiosas, por que ao mesmo tempo que sinto estes sentimentos, também não consigo notar minha própria existência, o que me torna desassociado inclusive dos medos, como o medo da morte, o medo de perder alguém que amo, o medo de perder meu emprego. Como eu não sinto, não sofro.

    A falta de sofrimento acaba me desequilibrando, e portanto, o que acontece é que tanto quanto não me sinto mal, também não me sinto bem, coisas que deveriam me dar uma plena satisfação, coisas que deveriam ser estimuladoras, acabam sendo chatas, tristes por eu saber que não se repetirão, ou estimuladoras demais, o que faz com que eu sofra uma ressaca emocional. Ressaca esta que faz com que eu então me sinta mal, volte com os mesmos hábitos para evitar me sentir mal, e o ciclo se repete.

    Há muito tempo que eu busco uma solução para isto, de modo que eu possa encontrar e perseguir um sonho, criar metas, concluir projetos, sair do deserto em busca de sofrimento, de coragem, de poder utilizar minha criatividade, porém coisas como estas não são tão simples. Como eu aprendo a sofrer?

  • Como um garoto judeu do suburbio, mergulhado em uma cultura que não é a minha, o blues toca a minha alma e faz parte de mim, o bend de uma guitarra é algo orgasmico, move os músculos do meu corpo de forma metafísica, inexplicável.

    Eu não sou judeu. Eu nasci no subúrbio de Pelotas, no Rio Grande do Sul, apenas a 100 km do Uruguaim, um lugar extremamente frio no inverno, e extremamente quente no verão, algo que combinado com a minha personalidade. Nasci em 2002, bem distante do movimento folk estadunidense que eu conheci anos depois, e bem distante do Robert Allen Zimmerman, ainda assim, posso dizer que sinto que uma grande parte da minha personalidade pode ser conectada a ele, o primeiro a se desconectar do seu nome, da sua cultura, abraçar a modernidade, a negritude, a alma e a artisticidade do blues para se conectar com o mundo como ele experienciava, e não necessariamente como ele é.

    Se as vezes eu me sinto desconectado é por que eu deixo de tocar o mundo como eu o experiencio, por que não tive a coragem que o Bob teve, por que não sei racionalizar toda a frustração que tenho, mas no fundo eu só devo me jogar, sentir o blues na minha pele, sentir o bend ir cada vez mais fundo, em mi menor, aceitar que devo tudo a esse sentimento e que esse sentimento me representa.

    No final eu não sei o que quero, o que devo fazer, mas sei que isto é o correto. Devo amar, devo buscar e devo afundar minhas mágoas na músicalidade. Viva o blues, viva Bob Dylan, e que venha 2026.

    Like Dylan’s Mr. Jones.

  • Se eu tivesse que julgar, eu diria que sou uma pessoa inteligente, daquelas que tem um bom raciocínio lógico, entende o movimento natural das coisas, resolve problemas, cria soluções, porém, quando o assunto é relacionamentos, pessoas, é como se houvesse uma neblina densa á frente, e eu ando, ando e ando um pouco mais, segurando minha lanterna e gritando por ajuda, sem saber se vou dar de cara com uma mina de ouro, ou se vou cair de um precipício. Como pode alguém inteligente ser tão *clueless* quando o assunto é lidar com outra pessoa que se interessa por mim? Talvez seja por que simplesmente estas coisas não tem uma resposta lógica. É como procurar um padrão jogando numa roleta no cassino, você as vezes pode achar que a próxima cor vai ser o preto, por que já apareceram muitos vermelhos, mas a chance de você errar ou acertar é a mesma de antes, o reconhecimento dos padrões são falsos e você só está enganando a si mesmo tentando prever o que vai acontecer.

    Dada esta introdução, gostaria de falar mais de mim mesmo e de Irene (este não é o nome dela, mas sim o nome de um filme estrelado pelo Jim Carrey). Nós namoramos durante um ano, durante este ano consigo dizer confiantemente que nunca conheci alguém igual a ela, tanto na parte boa, quanto na parte ruim. Na parte boa eu considero que durante este ano não fomos apenas namorados, mas também fomos grandes amigos, gostávamos de conversar um com o outro, de passar tempo juntos, de experimentar coisas novas, e de tudo mais que um casal poderia fazer. Nossos gostos são parecidos, nossas dores também, eu poderia ficar falando durante horas e horas sobre tudo que faz eu ter o carinho que eu tenho por ela, além de achar ela uma pessoa admirável em outros aspectos, mas também devo falar sobre a parte ruim. Antes de citar todos defeitos eu quero falar que de jeito algum eu sou ou fui perfeito, ou algo perto disto, eu cometi durante nosso relacionamento diversos erros que fizeram com que nós nos distanciássemos, fui injusto e muitas vezes fiz ela se sentir insegura, me fiz de vítima, não fui claro o suficiente e criei inseguranças para ela, eu mesmo sou muito inseguro e tenho problemas pessoais enormes, mas devo falar dos erros dela também. Como eu disse antes, ela foi minha primeira namorada, por isto, eu esperava dela mais paciência comigo, esperava mais comunicação, nunca tive de fato problemas com os problemas em si que ela, ou que nós, tínhamos, mas o que mais me incomodava era o fato de nós não conseguirmos trabalhar para resolver os ditos problemas, faltou de fato comunicação. Faltou também certa consistência, sinto que ela foi (e talvez seja ainda) muito inconsistente emocionalmente, uma montanha russa que eu tive o desprazer de embarcar. No geral eu gostaria que ela confiasse mais em mim para tentar resolver seus problemas, não que eu fosse um problema para ela ter que lidar, mas talvez tenha sido eu que tenha falhado nesta parte. É difícil escolher um culpado, falar quem teve mais culpa que quem. Uma frase que fica em constante repetição na minha cabeça foi algo que meu psicólogo me disse na nossa última consulta “Um relacionamento nunca termina exclusivamente por culpa de apenas uma pessoa”, a não ser que você seja a ex-esposa do jogador Kaká, eu imagino que este seja realmente o caso, portanto, não quero culpá-la de algo que eu poderia ter evitado, prefiro assumir a culpa e tentar ser uma pessoa melhor. Até porque eu posso ser bem babaca as vezes.

    Chegamos então ao presente, onde algumas semanas atrás ela decide me contatar. Confesso que não estava esperando que fossemos nos falar denovo, do jeito que foi nosso último contato eu imaginei que não iriamos mais nos relacionar, e que talvez fosse melhor deste jeito, porém, aqui estou, escrevendo sobre esse contato repentino, que definitivamente virou meu mundo de cabeça para baixo. Desde o dia que recebi esta mensagem dela minha ansiedade tem piorado consideravelmente, até porque eu gosto muito dela, tenho medo de ser magoado denovo, de ter meu ego ferido, de perder denovo alguém cujo o luto talvez eu nem tenha superado ainda. Não só isto como toda a incerteza pairando o ar me deixa muito inseguro e ansioso, a cada mensagem recebida eu penso um milhão de vezes se deveria responder, ou se é melhor eu evitar a possibilidade da dor. A cada mensagem enviada eu penso se talvez ela vá perder o interesse em mim de repente, aguardo uma resposta que demonstra que ela gosta de fato de mim.

    Não quero parecer aqui alguém emocionado (apesar de talvez estar um pouco com as emoções afloradas), mas sim quero retratar a realidade das minhas emoções e o sentimento das últimas semanas. Não pretendo e nem quero apressar as coisas, entendo que a valsa tem certo ritmo, que deve ser respeitado na dança, caso o contrário fica ridículo, erramos os movimentos e caímos com as pernas entrelaçadas batendo de bunda no chão. Não quero que seja assim, não quero que de repente ela mande uma mensagem de “Eu te amo”, até porque eu nem sei de fato como eu lidaria com isto. Eu simplesmente gostaria de ter a visão de um horizonte para os fatos, poder falar que sei onde estou me metendo e sei qual vai ser o output provável se eu decidir apostar minhas cartas na mesa. Por enquanto estou dando check para ver o river, porém sinto que já estou com muitas fichas na mesa, naturalmente, e não consigo enxergar quais cartas estou segurando em minhas mãos.

    Ainda além desses detalhes, nós nos encontramos nessa sexta-feira (ontem, quando estou escrevendo isto), e tenho que ser sincero e dizer que foi bom (estranho talvez? porém bom). Conversamos sobre tudo e mais um pouco, fizemos incontáveis piadas sobre sermos ex namorados, rimos alto, tive que escutar algumas histórias sobre relacionamentos que ela teve nesse meio tempo (mas de certa forma eu até gosto que ela confie em mim para contar este tipo de coisa, apesar de ser torturante ouvir que ela se relacionou com outro homem), e também supreendentemente senti que ela queria conversar mais sério as vezes, como se ela estivesse me testando (e se auto-testando) para ver se deveríamos nos relacionar denovo. Ela também disse que se sentiu apreensiva de me ver, então, não consigo ver um mundo onde ela pensa no nosso possível relacionamento sendo apenas casual ou amigável. Acredito que nós vamos voltar a namorar, ou, caso contrário, o prudente é que continuemos nossas vidas, separados. Ainda falando sobre nosso encontro, é importante falar que no final, quando deixei ela na frente do condomínio dela nós nos beijamos, ela de forma um tanto quanto agressiva, quis me beijar segurando meu pescoço, me arranhando, e depois eu abracei ela, e ficamos assim por alguns segundos, relembrando o carinho que tinhamos um pelo outro. Posso estar simplesmente fantasiando mas vejo que há algo nestes pequenos gestos, como ela me arranhando como forma de me “marcar” para que eu não me relacione com nenhuma outra garota, ou ela falando que quer ir na peça que eu vou atuar, que vai acontecer só em dezembro, dando a entender que estaremos nos relacionando ainda até o fim do ano. Tivemos algumas falas cuidadosas, que nas entrelinhas eu lia “Estou disposto a tentar, talvez funcione dessa vez”.

    Sinto que enquanto essa história não tiver um fechamento eu estarei beirando a insanidade, como se eu estivesse assistindo meu time perder uma partida de futebol, e com 10 minutos faltando, a única tática é cruzar a bola para dentro da grande área. Esse nível de ansiedade. Mas quero que as coisas fluam naturalmente, sem pressa, sem pressão, com suavidade. Ela me chamou também para sairmos dias 5 e 8, e espero que consigamos conversar mais, chegarmos em um acordo de que independentemente do resultado, seremos justos um com o outro, e não nos machuquemos atoa.

    Enquanto isso, eu continuarei sendo eu mesmo, com minha inocência, acreditando que tudo pode dar certo e que eu tenho a capacidade de resolver qualquer coisa, mesmo que seja uma mentira que eu conto para mim mesmo.

  • Está na hora de crescer um pouco. Chega de agir como se eu fosse uma criança para as pessoas que importam para mim, chega de tratar com rancor, deixar minhas inseguranças levarem o melhor de mim. Está na hora de eu ser uma pessoa emocionalmente responsável.

    Eu devo pensar mais no que eu falo, pensar nas sensibilidades das pessoas, ser um homem traz certas responsabilidades consigo. Me enxergar como adulto é necessário nesse estágio da minha vida, onde minhas decisões importam, onde em poucos meses minha vida pode mudar para sempre.

    Eu venho me preparando cada vez mais para me dedicar completamente á arte, quero ir estudar cinema em São Paulo, e apesar de ser um pouco caro, acredito que eu consiga guardar o dinheiro suficiente para fazer com que isto possa acontecer. A vida de TI é chata, e não consigo me ver trabalhando por mais 5 anos nesta área, que, por mais que pague bem, não me traz preenchimento nenhum.

    Não só preciso ter responsabilidade emocional com as outras pessoas como preciso ter responsabilidade emocional comigo mesmo. Ainda mais quando se trata de seguir meus sonhos, quando se trata de progredir e não ficar preso ao passado, preciso ter paciência, entender meus sentimentos, dar espaço para eu sentir as coisas, preciso ser capaz de estudar durante longas horas, trabalhar sem sentir que estou cometendo um crime, entender as minhas motivações para chegar onde eu almejo.

    Recentemente venho tendo sessões regulares com um psicólogo e acredito que isto tem me beneficiado bastante, não sei se posso atribuir minha clareza mental simplesmente ás consultas, porém, certamente vem me ajudado muito. Poder discutir meus problemas e organizar meus pensamentos que antes eram dispersos tem feito com que meu dia-a-dia se tornasse mais amigável a mim mesmo, e eu tenho criado uma maior capacidade de pensar racionalmente ao invés de me sentir ansioso e buscar a anestesia mais próxima.

    Nas últimas semanas também venho tendo contato denovo com a minha ex, e até aqui as coisas vão bem, apesar de me sentir fora do controle das coisas sinto que nosso relacionamento durante estas semanas tem sido saudável e recíproco. Preciso esperar para ver como ela vai agir comigo nas próximas vezes que nos vermos, tentar entender melhor o lado dela, apesar de acreditar que estamos nós dois reciosos, ainda assim parece que estamos gostando um do outro, e as coisas parecem serem produtivas para ir á frente.

    Ela foi minha primeira namorada e por isso, sinto que, durante nosso namoro eu provavelmente não fui a pessoa mais emocionalmente responsável, deveria ter tido mais paciência, deveria ter cuidado mais dela, não ter trazido tão á tona algumas inseguranças dela e ter focado mais em mim mesmo, para garantir que eu seja a melhor pessoa possível para ela, e caso também, caso nosso relacionamento não funcione, eu sinta que não perdi tempo demais e que consegui progredir na esfera pessoal.

    O termo “virar homem” pode significar muita coisa, mas sinto que para mim, o que este termo significa é a passagem da pessoa que entende seus sentimentos e os dos outros, e sabe seu rumo, seus objetivos. Estou planejando escrever um próximo post falando mais sobre meu relacionamento com minha ex, como eu espero que as coisas vão se desenrolar, e um pouco sobre o que passa na minha mente durante estas semanas que venho conversando com ela. Meus sentimentos tem sido bem mistos e durante a maior parte do tempo me sinto excessivamente ansioso. Não quero pressionar ela, muito menos me sentir pressionado, mas também tenho medo de ser negligente demais, medo também das coisas que não posso controlar, como as reações dela. Até aqui tem sido tudo bem, e acretido que nós dois estamos sendo muito responsáveis emocionalmente.

    Vou deixar este post por aqui e focar mais exclusivamente nela e no que me passou nas últimas semanas no próximo post.

  • Ah, o sotaque irlandês… Eu poderia escutar horas e horas de irlandeses falando sem me cansar, definitivamente um dos meus sotaques favoritos do inglês, junto do quase indecifrável sotaque escocês, como nas músicas do Cocteau Twins, na bela voz de Elizabeth Fraser. E para os amantes assim como eu do inglês gaélico, eu tenho uma *baita* recomendação de filme, o belíssimo e eterno Barry Lyndon, do diretor Stanley Kubrick, talvez o filme estéticamente mais bonito já filmado, frequentemente aclamado pela sofisticação dos visuais, filmado em lentes da nasa, fabricadas justamente para a qualidade visual deste filme, que usa como iluminação a luz natural e velas para as cenas noturnas, coisa que na época era impensável, mas que, de algum modo, o visionário diretor conseguiu reproduzir com perfeição.

    Mas não estou aqui para falar somente sobre as qualidades visuais dessa belíssima obra de arte, eu estou aqui na verdade para traçar um paralelo, falar de algo do qual o filme é, na verdade, frequentemente criticado, a sua história. Eu, ao contrário da maior parte do público, tomei gosto pelo filme não só pela sua bela imagem, ou pelos seus figurinos espetaculares, mas sim pela sua história, que segue a vida do nosso protagonista, Redmond Barry, que mais tarde, por uma sequência de eventos se tornaria Barry Lyndon.

    “Ou você morre herói, ou vive o suficiente para se tornar o vilão”

    Ou algo do tipo, é a síntese desse filme. Como uma boa história de ascenção á riqueza, o filme demonstra como a luxúria corrompe, os desejos, a gana por mais, a estupidez sem senso quando alguém se depara com recursos, mas sem ter a motivação certa para atribuir corretamente seus ganhos. Uma crítica recorrente na era vitoriana.

    Barry começa como um simples camponês que se apaixona por uma camponesa, e está disposto a fazer de tudo pelo seu amor, até morrer. Ou seja, ele tem uma causa nobre para lutar por, algo para almejar, e só lhe resta esta opção, nada mais lhe caberia da vida, e isto é admirável, algo que deveríamos invejar. Imagine ter tanta certeza de algo que você está disposto a entregar qualquer coisa que seja só para que isto se torne verdade. Aí eu te pergunto, você já sentiu algo assim antes?

    Para o azar de Barry, um militar da alta cúpula também se afeiçoa pela mesma mulher (que aliás é prima de Barry, mas tenham paciência, estamos no século XVIII), Até que Barry o desafia para um duelo. *Essa é para vocês mulheres, quantos homens já duelaram por vocês?

    Aqui eu decido interromper a história do filme, até por que não é necessário para que entendamos o paralelo que eu quero traçar entre os dias de hoje, e a história de Barry.

    Barry, um homem que parecia tão obstinado acaba perdendo o motivo de sua obstinação por lhe parecer inalcançável, decide então preencher este sentimento com glória, títulos, riqueza, coisas fúteis e egoístas, ele decide viver para si mesmo.

    Parecido com Barry estamos nós no século XXI. Você já parou para imaginar o que você quer da vida? Onde se vê daqui 5, 10, 20 anos? Nós não temos mais certeza de nada, mas, comprar é uma certeza, beber é uma certeza, gozar é uma certeza. Não conseguimos comprar uma casa, não temos dinheiro para comprar um carro, a comida é quase inacessível, relacionamentos estão cada vez mais difíceis de serem mantidos.

    Ao invés de falar sobre o resultado das escolhas de Barry e de onde a sequência de eventos o levou, e, se valeu ou não a pena, falaremos um pouco sobre a minha vida, minhas decisões, os objetivos, nobres ou não, e pretendo expandir isto para fazer uma análise generalizada da vida no século XXI.

    Assim como nosso protagonista eu não tenho um objetivo definido, me guio pelo o que seria mais confortável, o que me faria poder gastar mais, quais decisões eu tomaria para viver uma vida de prazeres cada vez maiores, porém, ao contrário de Barry, não tenho um motivo para ser expulso do conforto do meu vilarejo, da covardia da minha paixão inalcançável. Posso ficar aqui, sem ter de entrar no labirinto e encarar o minotáuro.

    Até quando eu vou fugir da minha Ilíada? Quando estarei pronto para queimar na fogueira como a Joana D’arc?

    Eu gostaria de influenciar as pessoas de algum modo, mas ao mesmo tempo me sinto trancado, incapaz de ter a certeza para influenciar a mim mesmo. Barry e eu somos vítimas dos nossos tempos. Tempos de covardia, de incerteza, da negação do divino, de prazeres e luxúrias imensuráveis.

    Por isso, temos de fugir do conforto. Quando um parente mais velho julga nossa geração, falando que somos moles, (que nunca passamos fome como ele, que começou a trabalhar com 13 anos de idade fazendo sei-lá-oque), nós nos sentimos imbecis, sentimos que não temos controle de nossas próprias vidas, e que por algum motivo nascemos errados, que nosso cérebro sofre de problemas patológicos e que talvez não tenhamos jeito. Porém, muitas vezes deixamos de levar em conta o ambiente.

    Poderia ser que não somos tão diferentes assim de nossos avós? O que tem de errado em termos nascido no conforto nos dado pelas gerações passadas? E daí que eu não trabalhei com 13 anos de idade, se precisasse e se tivessem os incentivos certos eu provavelmente teria sim trabalhado com esta idade, mas a mim não foi dada esta opção, nunca precisei me expor ao estresse por que nunca foi me apresentado esse estresse.

    Quando apresento a ideia de me mudar da casa dos meus pais, minha mãe prontamente tenta me convencer de que tenho conforto aqui, que se eu continuar aqui poderei desfrutar de mais prazeres com meu dinheiro, que posso gastar mais e guardar mais dinheiro, posso fazer uma viagem cara aos Estados Unidos, comer nos melhores restaurantes. Mas aí eu paro e penso, “será que o que eu preciso é mesmo de mais conforto?”. Talvez o que falte na minha vida é justamente sair desta zona de conforto, me expor ao desagradável, a fome, a escassez, e receber de volta desta vida um eu diferente, que sobreviveu, que soube explorar os caminhos do labirinto e saiu com a cabeça do minotauro em mãos.

    Com isto dito, volto ao título deste post. Não sejam um Barry Lyndon. Não se valham do esforço de alguém, para que as coisas tenham sentido precisamos conseguir elas pelas nossas próprias mãos, por mais que os outros possam nos ajudar, devemos ser capazes de ajudar de volta e de construir nossa casa com nossos próprios tijolos. Claro que certas coisas dificultam nosso caminho, como o preço dos alugueis, a inflação nos alimentos, a falta de uma estruturação da sociedade atual, porém sempre houveram dificuldades, e as nossas são estas, então cabe a nós partirmos neste mar que ainda não foi desbravado. Uma sociedade com tantas técnologias novas também vem com problemas novos que precisam de soluções novas, e isto não será dado pelas velhas gerações do “com sua idade eu já estava casado”, será dado por nós mesmos, que temos que carregar esta cruz das decisões dos que vieram antes de nós, mas agora munidos de uma vasta gama de informações em um mundo globalizado.

    Espero que encontremos a glória amigos, e não acabemos como Barry, que para que entenda, sugiro que veja o filme, já que eu não gostaria de dar spoilers aqui.

  • O dia das crianças tá chegando (comecei a escrever isto antes) mas não é necessariamente o que me motivou a escrever este texto. Só calhou de coincidir que justamente agora eu fiquei reflexivo sobre algo que venho pensando há muito tempo, sobre quem eu sou, sobre minha personalidade e meus costumes, minha motivação para fazer as coisas.

    Eu sou uma criança. Na verdade, não exatamente, eu não sou exatamente uma criança ou levo a vida de uma criança, eu sou um adulto, com um emprego, responsabilidades, contas, mas o que eu quero dizer é que por dentro, o que me motiva, o que me faz gostar da vida, o modo com o qual eu vejo a lógica do mundo, tudo isso é sim a criança dentro de mim que fala mais alto.

    Antes de julgarmos se isto é uma coisa boa ou ruim, ou se eu realmente estou falando a verdade e não só repetindo algo que eu assisti em algum filme, eu gostaria de dar meus três motivos, que chamarei dos pilares que alicerçam este eu infantil que mora em minha subconsciência. Esses pilares serão: A brincadeira, a criatividade e a inocência. As três características que percebo que estão muito presentes na minha personalidade, e que entrego a uma espécie de espírito infatil que mora na minha alma.

    A brincadeira: Eu vejo a brincadeira como meu amor pelos jogos, esportes, competições por mais bobas que sejam. A capacidade de interagir com alguém de modo lúdico é o que me traz mais felicidade, costumo me lembrar de quando eu escrevia músicas com meus primos mais velhos, escreviamos coisas engraçadas, e cantavamos enquanto caíamos em gargalhadas, ou quando ainda depois de velho, faço brincadeiras de adivinhação com meus amigos, e sem julgamentos, procuramos saber o que o outro está pensando com perguntas, por mais bestas que sejam, ou no teatro, basicamente em qualquer interação, tento mergulhar no meu eu infantil o máximo possível e buscar brincar durante e entre as cenas.

    A criatividade: Apesar de andar lado a lado com a brincadeira, até porque, muitas vezes para brincar você precisa imaginar, eu inclúo a criatividade como algo separado, pois quero me referir as minhas habilidades criativas quando estou sozinho, seja compondo, escrevendo como aqui estou, produzindo músicas ou gravando vídeos. Eu preciso disso, tenho a necessidade de me expressar ou acabo esquecendo quem eu sou, me vejo trancado num espaço sem horizonte onde o rumo da minha vida é simplesmente ganhar mais dinheiro, comprar mais coisas.

    E por último, a inocência: Aqui podemos considerar um termo mais brando, mas no geral quero significar ter a capacidade de não julgar, o poder de olhar as coisas como olhavamos quando eramos pequenos, como se as lentes que nos fizeram mais frios e mais sérios não existissem, e tivessemos capacidade de ver as coisas sem preconceitos e ideologias. Pequenos detalhes como uma opinião de outra pessoa sobre uma música, nós podemos julgar como se fossem imbecis que não entendem nada, “nossa, que mal gosto”, quando na verdade deveríamos ter a inocência de entender que pessoas tem opiniões diferentes das nossas e que nós mesmos não somos os donos da verdade em caso algum.

    Com esses três pontos desenvolvidos, me proponho a fazer uma análise em cima destes. Sinto que quanto mais inibo o meu lado infantil, mais me sinto triste e isolado, estagnado e sem propósito. Explique para meu eu de 3 anos que tocava sua guitarra e cantava em seu microfone de brinquedo que ele na verdade não seria capaz de se expressar quando fosse maior, não seria capaz de cantar sem imaginar o julgamento alheio e que isto seria um impeditivo para ele.

    Neste sentido, um dos meus principais objetivos hoje é me conectar com meu eu infantil, que carece de atenção, carinho, brincadeiras, criações. Que é inocente no modo de pensar, quase bobo as vezes, e que tem a humildade para aceitar o não saber. Ser quem veradeiramente sou, sem me problematizar a estética, as opiniões alheias, as falcatruagens e os julgamentos.

    Finalizo dizendo que eu gostaria de que todos tentassem ser um pouco mais criança, não estou dizendo que devemos aprender com as crianças, ou tentando repetir algo genérico que todos falam sobre a infância. Digo que devemos ser menos, para nos tornar mais, algo inteiro. Hoje tanto nos nossos trabalhos, em relacionamentos, em discussões políticas, nós nos propomos a ter respostas para tudo, desistir quando algo não acontece do modo que gostaríamos, e esquecemos de baixar o tom, de brincarmos como criança, experimentarmos coisas novas e abrirmos nossos olhos para um horizonte além daquele que é óbvio dentro dos nossos paradígmas.

    Portanto, convido vocês para serem mais criança comigo, o que pode até parecer uma tarefa fácil, mas talvez seja a coisa mais corajosa que eu já me propus a fazer.